Quem diria ? Eu, que vivi quase toda minha existência digital focado em software livre, atraído pelo lado negro da força. Não o lado completamente negro, mas, digamos, um lado cinza.
Comecei a computar lá pelos idos de 1995. Dois anos depois, 1997, lá estava eu com meu sistema em dual-boot usando aquele sistema operacional que todos conhecemos e que mais de 90% das pessoas do mundo todo insistem em usar, mais GNU/Linux em outra partição do meu saudoso disco. Alguns meses depois, lá estava eu, 100% GNU/Linux. E tem sido assim desde então.
Há mais ou menos dois meses atrás (diacho, foi antes de 1 de Outubro), eu estava procurando por um substituto para meu fiel companheiro, meu antigo (e, agora já não mais comigo) laptop, um Compaq NX9005, o qual rodava minha venerável cópia da versão de desenvolvimento do Debian GNU/Linux (como de praxe em todas as minhas máquinas pessoais que não atuam como servidores).
Eu sabia que dessa vez queria um laptop pequeno, de 12 ou 13 polegadas no máximo. Teria que ser uma máquina com uma configuração de hardware razoável para os padrões atuais, pequena, leve e com bastante tempo de duração de bateria. Não precisaria ser algo muito potente, porque para compilar as coisas eu tenho meu desktop doméstico mais parrudo.
Passei alguns dias procurando e, certo dia, visitando a seção de informática do Submarino, me deparei com uma promoção de notebooks da Apple. Me deparei com máquinas com nomes pomposos, como MacBook e MacBook Pro. Resolvi pesquisar sobre eles e me muni de informações sobre do que se tratariam. Depois de pesquisar bastante, descobri que um MacBook (não o MacBook Pro) seria uma opção interessante.
Promoção no Submarino, pagamento em 12 vezes sem juros, aquele notebook branquinho, bonito e pouco juízo na cabeça foram os ingredientes perfeitos para concretizar a besteira. Lá estava eu com uma dívida de 12 meses no cartão de crédito e proclamando palavras de baixo calão ao me referir ao prazo de entrega do Submarino-pós-compra-pela-Americanas.com, que de 1 dia útil só tem o nome.
Uma semana depois, lá estava eu com a razão das minhas dívidas em mãos. Comecei a brincar com o bichinho. A idéia era instalar Debian nele o mais rápido possível, mas como eu havia acabado de chegar do trabalho e já era meio tarde da noite, decidi fuçar o MacOSX e deixar a tarefa de instalar o Debian para o próximo dia.
Sábia decisão. Pouco tempo de brincaderia e eu já estava decidido que queria dual-boot entre MacOSX e Debian e tem sido assim desde então. Tenho dividido meu tempo entre o uso do MacOSX e de GNU/Linux (Debian) e, sinceramente, não tenho do que reclamar.
A máquina é rápida, leve, silenciosa, estável, bonita, tem um tempo ótimo de duração de bateria (mais de 5 horas usando MacOSX e pouco mais de 3 horas usando Debian) e não tive problema algum com a mesma desde quando a adquiri. Lógico, a Apple é a próxima Microsoft e o mundo vai acabar amanhã, mas estou gostando disso.
Não abandonei o software livre. Longe disso, ainda trabalho 100% com software livre, dou suporte a e administro dezenas de servidores GNU/Linux (em sua maioria Debian) e minha estação de trabalho tanto na empresa quanto meu desktop doméstico rodam Debian, mas o MacOSX me deixou bastante satisfeito.
Ele é um misto de muita coisa boa que existe em software livre (kernel Darwin, baseado no FreeBSD, com muita coisa Unix/Linux por debaixo da interface bonita : bash, vim, OpenSSH, Apache, BIND, etc, etc) com uma interface proprietária muito bonita e agradável de se utilizar. Usar o hardware da Apple com o software da Apple é uma experiência e tanto.
Experiência tão boa que me levou a cogitar, na primeira vez na vida, a idéia de comprar software. Sim, pode ser ideologicamente considerado errado por muitos (e eu concordo parcialmente), mas o fato é que eu não tinha até então encontrado nenhum software proprietário/pago que tivesse qualidade o bastante para me fazer pensar em pagar pelo mesmo.
Eu simplesmente não usava. Não valia a pena, na minha opinião. Com o MacOSX a história foi outra. Me impressionou tanto em termos de satisfação que eu realmente decidi comprar uma cópia do MacOSX 10.5 Leopard, lançado mundialmente ontem, 26/07/2007. Não é barato, mas também não é tão caro se comparado o outros sistemas operacionais proprietários.
O problema é que, mesmo teoricamente tendo sido lançado mundialmente ontem, estamos no Brasil. A Apple Brasil alardeou que aceitaria compras do Leopard simultaneamente com toda as lojas da Apple em todo mundo. Fiquei feliz, sem contar que o preço é basicamente o mesmo preço da matriz americana, só com a conversão de valores em dólares para reais.
O problema é que, como muitos usuários de Mac amargamente ficaram sabendo, a Apple Brasil está somente aceitando as compras, mas não necessariamente entregando o produto. Os revendedores autorizados nem mesmo tem o produto em estoque e alguns nem mesmo sabem quando o terão, enquanto os que tem alguma idéia da disponibilidade dão previsões de entrega para daqui a 20 dias.
Compare isso com o restante das representantes da Apple no mundo, que começaram a aceitar encomendas antes do lançamento oficial ontem e já entregaram os produtos ontem mesmo. Nem mesmo se eu quisesse ter o trabalho de ir até uma loja e comprar pessoalmente o produto eu teria sucesso. Como eu disse, ninguém possui o produto em estoque.
Como faz falta uma Apple Store oficial aqui no Brasil. Mesmo com a Apple Brasil aqui, o que temos são somente revendas autorizadas, não Apple Stores, as lojas oficiais gerenciadas pela própria Apple. Elas existem em inúmeros países ao redor do mundo, mas não aqui no Brasil. Existem rumores da abertura de uma Apple Store em um shopping em São Paulo, mas, ao menos por enquanto, são somente rumores.
Até lá, nós, meros mortais brasileiros que queremos estar dentro da lei e comprar o produto continuamos esperando. Isso já seria motivo para alimentar a pirataria, você pode imaginar. O interessante é que usuários Apple parecem ser mais conscientes do que é certo e o que é errado em comparação com usuários de outros sistemas operacionais proprietários.
Digo isso porque estou participando de uma lista de discussão nacional de usuários de MacOSX e a conversa atual na lista é o fato da indisponibilidade do Leopard para usuários brasileiros. Tirando poucos (me recordo de apenas um usuário ter citado a possibilidade, não que o fez), a esmagadora maioria realmente está interessada em comprar o produto e não a recorrer a redes de compartilhamento de arquivos para obtê-lo de maneira ilegal.
Compare isso com usuários daquele outro sistema operacional. Esses usuários tem a sua disposição a última versão do sistema operacional que utilizam já há algum tempo, mas todos que o utilizam e que conheço não pagaram pelo mesmo. Usam cópias piratas, peripécias das mais diversas e mais uma dúzia de truques esdrúxulos para transformarem suas cópias piratas em cópias originais, se que você me entende.
Usuários Mac, por outro lado, estão dispostos a pagar pelo software. Mas, pasmem, ninguém está disposto a vender o software aos mesmos. E esse pessoal, ao invés de correr para as redes de compartilhamento de arquivos e obtê-lo de forma ilegal, simplesmente prefere esperar pela disponibilidade do software em terras tupiniquins e comprá-lo legalmente.
Eu sei que não deveria ficar surpreso com isso e que essa deveria ser a maneira certa das coisas funcionarem, mas, ei, estamos no Brasil. Estou falando do país dos espertos. Do país dos políticos mais odiados e com mais razão para serem odiados do mundo, que diariamente dão razão para os cidadãos agirem de forma errada.
Felizmente, parece que existe esperança para a humanidade além das fronteiras do software livre. Será que nosso software, lentamente infectando a base dos felinos da Apple, conseguiu implantar um pouco de consciência nas mentes dos seus usuários ?
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