A importância da comunidade
November 25, 2006 on 10:33 pm | In DebianBR, Portuguese, community, msandnovell | 7 CommentsOs acontecimentos relacionados ao acordo entre Microsoft e Novell que circularam nos últimos tempos geraram uma grande enxurrada de comentários contra e a favor e, em alguns casos mais extremos, manifestações de boicotes contra a Novell.
Não acho que seja correto assumir que a Novell é 100% vilã nessa história toda. Tudo bem que agora ela possa estar tomando um posicionamento que uma grande parcela da comunidade não aprova, mas devemos sempre lembrar que ela ao menos contribuiu bastante com inúmeros projetos de softwares livres/abertos no passado recente e isso deve ser respeitado.
O que a Novell parece estar fazendo agora, porém, é algo perigoso. O problema é que a Novell, mesmo tendo incorporado empresas nascidas 100% ligadas ao software livre/aberto, parece ainda não ter conseguido entender algo crucial para quem pretende atuar como um participante do ecosistema livre : respeitar a comunidade é essencial.
E, por comunidade, não estou dizendo aqui os clientes Novell que utilizam softwares livres/abertos, mas sim as pessoas, empresas, grupos de pessoas e todo o restante que realmente fazem com que essa roda toda continue girando, produzindo tecnologia e soluções de qualidade diariamente, em todos os cantos do mundo.
É crucial que quem quer que pretenda jogar esse jogo entenda que, com software livre/aberto, nenhuma solução que forneçamos aos nossos clientes será composta 100% de tecnologia que criamos nós mesmos, sem a ajuda de ninguém. Por mais bem acabada que sua “casca”, sua “cola”, sua “interface” ou suas melhorias sejam, sempre haverá código de inúmeras outras pessoas/grupos sendo utilizado em algum nÃvel em sua solução baseada em software livre/aberto.
A comunidade é composta de talentos brilhantes, que compartilham suas idéias e código livremente, mas que exigem no mÃnimo respeito. Assumir que somente seus clientes merecem algum tipo de “vantagem” e que a comunidade não é merecedora da mesma “vantagem” e, ainda por cima, assumir isso publicamente (talvez não diretamente, mas por entrelinhas), é um exemplo perfeito de um tiro no pé.
Digo isso porque, nesse caso, você está desrespeitando seu fornecedor principal, a fonte de onde grande parte da tecnologia que você utiliza em suas soluções é retirada. Dinheiro é bom e todo mundo gosta, mas aceitá-lo para se posicionar contra os ideais do grupo ao qual você publicamente faz parecer fazer parte é, no mÃnimo, muito ingênuo : ganha-se a curto prazo, mas de médio a longo prazo você mata seu próprio negócio.
Vários membros da comunidade já se posicionaram em relação ao assunto e tornaram públicas suas opiniões, mas o que me fez escrever este post foi algo que acabei de ler e que me serviu de inspiração. Pode parecer evidente para nós, que já convivemos em comunidade há tanto tempo, mas ainda parece ser algo difÃcil de se compreender para a maioria das empresas, mesmo aquelas com experiência no assunto (vide Novell) : o que importa é a comunidade.
Tenha boas relações com a comunidade e você terá sucesso, desrespeite-a e você terá o que não pediu, algumas vezes da pior forma possÃvel e em uma velocidade extremamente rápida. Eu não sou ninguém para dar conselhos e, devido a isso, dificilmente alguém me ouviria, mas acho importante que quem quer que queira participar da comunidade entenda como as regras funcionam.
Por isso, achei que seria uma boa contribuição ajudar traduzindo o post mais recente do Greg Kroah Hartman, importante kernel hacker há tempos profundamente envolvido com a comunidade, contribuÃndo em várias frentes com código e tentando deixar claro para as empresas como são as regras de convivência em uma comunidade formada ao redor de projetos de softwares livres/abertos.
Senhores e senhoras, com vocês, Greg Kroah Hartman :
Todo o ecosistema Linux é bastante estranho para pessoas que estão acostumadas a maneira “tradicional” que as empresas funcionam. Aqui está um guia suscinto para iniciantes para aqueles que precisam de um lembrete.
Em uma empresa de tecnologia “tradicional”, você tem executivos tomando decisões estratégicas profundas, os gerentes seguindo essas decisões e dizendo aos engenheiros o que desenvolver (sim, existe marketing e vendas também, mas parece esse ensaio, vamos simplesmente ignorá-los por enquanto). Normalmente os executivos, os gerentes e os engenheiros estão focados em criar a “futura melhor solução” em sua área, e estão competindo diretamente com outras empresas de sua mesma área.
E isso funciona bem, todos estão acostumados a esse formato e grandes porções da economia mundial dependem deste modelo.
E então há o Linux.
E, por Linux, eu vou focar no kernel aqui, mas você pode extrapolar a idéia para qualquer outro componente do ecosistema de uma distribuição Linux também, pois todos funcionam praticamente da mesma maneira, de uma forma ou outra.
No Linux, as regras são diferentes, bem como a maneira que todo o ecosistema funciona.
Para o Linux, o “produto” é criado por engenheiros trabalhando na comunidade. Os membros da comunidade se reunem e trabalham para um projeto em comum, tornando-o o melhor que podem fazer. Esses engenheiros são um grupo bem grande, originados de um grande número de empresas e com experiências distintas.
Empresas entenderam que o Linux é algo bom para se usar e tentaram entender como ganhar dinheiro oferecendo-o como um sistema suportado semi-estável.
Essas empresas possuem executivos, gerentes e engenheiros, da mesma forma que uma empresa tradicional também os possui. Mas aqui é onde as coisas começam a funcionar de forma diferente. Esses executivos ainda tomam profundas decisões estratégicas, os gerentes trabalham para levar essas decisões em frente e dizem aos engenheiros o que desenvolver, mas os engenheiros tem que trabalhar com a comunidade para atingir seus objetivos. Esses engenheiros dependem da comunidade para serem capazes de criar algo que a empresa toda possa fornecer aos clientes e com o que possa ganhar dinheiro.
Devido a essa dependência da comunidade, as empresas tendem a serem divididas em duas grandes categorias (sim, existem mais categorias, mas, por enquanto, vamos simplificar as coisas) :
- empresas que ignoram a comunidade : Essas empresas meramente empacota seja lá o que for que a comunidade crie e vende isso. Assim, elas não possuem muita influência no produto e se tornam jogadores menores no mercado.
- empresas que abraçam a comunidade : Essas empresas contratam membros da comunidade ou permitem que seus funcionários entrem na comunidade, uma vez que elas entendem que essa é a única forma de possuem de guiar o Linux para direções que elas acreditam que ele deva seguir. Devido a isso, a empresa é capaz de oferecer soluções a seus clientes um pouco antes que as empresas na primeira categoria as oferecem e elas podem suportar seus clientes de forma muito melhor, uma vez que os membros da comunidade são capazes de auxiliá-los diretamente.
Empresas que se encaixam na primeira categoria podem agir da forma que desejarem, seus executivos podem fazer acordos com quem desejarem, elas podem tentar ser concorrentes diretos de outras empresas e ninguém na comunidade irá realmente se importar, uma vez que essas empresas são jogadores pequenos e não muito importantes.
Porém, empresas na segunda categoria devem se atentar a comunidade. Seus executivos não podem sair por aà fazendo coisas que não estejam nos melhores interesses da comunidade, seus gerentes não podem tentar competir diretamente com seus competidores e seus engenheiros não podem ignorar os desejos e opiniões da comunidade.
Caso alguma dessas coisas aconteça, a empresa logo será ignorada pela comunidade, forçada a implementar todas as grandes coisas que os executivos e os gerentes sonharam por si só e lentamente acabar se tornando uma empresa membro da primeira categoria, relegada a ser um jogador pequeno, uma vez que a comunidade e as empresas que são membros reais da comunidade as ultrapassam e seguem seu próprio caminho.
A história já está cheia de remanescentes de empresas que originalmente iniciaram abraçando a comunidade, mas então cometeram o erro de pensar, por algum razão, que eram empresas de tecnologia “tradicionais”.
Será interessante ver o quão bem as empresas atuais no ecosistema Linux realmente entendem o quão diferente seu ambiente de negócio realmente é.
Note que todas as idéias que você possa ter sobre qual empresa da mundo real se encaixa em qual categoria, ou porque este ensaio foi escrito em primeiro lugar é tudo algo que está em sua própria mente …
Perceba que, no inÃcio de seu ensaio, Greg diz : “Aqui está um guia suscinto para iniciantes para aqueles que precisam de um lembrete.” Eu creio que sua intenção foi tentar relembrar seu empregador que existem regras a serem respeitadas e quais são os riscos de não respeitá-las.
O último parágrafo é bastante irônico, já que o próprio autor do ensaio, além de ter as credencias já expostas anteriormente, também é um membro da comunidade sendo pago pela Novell para desenvolver projetos de software livre/aberto em comunidade, principalmente o kernel Linux.
Você tem alguma alguma dúvida de qual empresa faz parte da segunda categoria e porque o ensaio de Greg foi escrito ?
Microsoft e Novell
November 8, 2006 on 10:25 am | In DebianBR, Portuguese, msandnovell | No CommentsNão preciso dizer nada sobre o caso, já disseram por mim ![]()
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