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formspring.me : Excesso de informação e escassez de tempo para coisas simples

March 6th, 2010 No comments

Mais uma resposta a uma pergunta que recebi no formspring.me. Para quem ainda não entendeu, o formspring.me é um serviço onde você pode se cadastrar e as pessoas, cadastradas ou não, anonimamente ou não, podem lhe fazer perguntas.

É uma espécie de FAQ sobre você mesmo, onde os interessados podem saber mais sobre você ou mesmo lhe fazer perguntas relacionadas a sua opinião sobre qualquer assunto.

Caso esteja interessado/interessada em saber algo sobre mim ou minha opinião sobre um determinada assunto, confira se já respondi a pergunta que você faria em meu perfil no formspring.me ou faça você mesmo sua própria pergunta.

Abaixo, a pergunta que resolvi selecionar e a resposta que forneci a mesma :


Pergunta :


Como lidar com a quantidade de informação hoje em dia ? Existe tempo para leitura dos “Clássicos” como Fernando Pessoa e Machado de Assis ? by geekbr


Resposta :


Se eu soubesse realmente como lidar com a quantidade de informações com a qual somos bombardeados diariamente eu provavelmente escreveria um livro sobre isso e ficaria rico e famoso, exatamente como o fazem os escritores de livros de auto-ajuda.

Realmente, vivemos em um tempo em que somos bombardeados com um quantidade enorme de informações. A grande sacada, que muitos ainda não entenderam, é que não somos obrigados a absorver e entender toda essa informação.

Podemos filtrar somente a informação que necessitamos ou somente a informação que nos interessa e ignorar todo o ruído adicional que teima em querer nos perseguir e se disfarçar de conteúdo importante.

Existem inúmeras ferramentas, como os agregadores de feeds (Google Reader, por exemplo), que nos permitem perder menos tempo indo atrás das informações, nos trazendo a informação automaticamente sempre que uma atualização ocorrer na fonte original.

Certamente, existe também o perigo de nos empolgarmos com a quantidade de informação disponível e caírmos na armadilha de tentarmos acompanhar toda e qualquer fonte de notícia, na vã esperança de que alguma informação útil um dia será nos passada a partir dessas fontes.

Nesse ponto, é importante ter a noção da existência da possibilidade de uma filtragem ainda mais profunda da informação que chega até nós, para separar o ruído da informação útil.

Ainda reutilizando o exemplo dos agregadores de feeds, existe a possibilidade da assinatura de feeds por tags/palavras-chaves, de forma que não exatamente todo o conteúdo das fontes de origem da informação nos serão trazidas, mas sim somente a informação devidamente rotulada com uma palavra-chave (tag) específica, a qual esperamos realmente refletir o assunto descrito pelo identificador da palavra-chave utilizada.

Também temos a opção de simplesmente dedicar menos tempo a acompanhar toda essa informação que nos cerca e nos preocuparmos mais com nossos amigos, parentes, familiares, companheiros e com as pessoas que nos cercam de uma forma geral.

Lembre-se que toda a informação importante que nos é trazida pela Internet é, em essência, produzida por pessoas, não por máquinas. As máquinas são somente um meio de transporte para que a informação nos atinja.

E se a informação é produzida pelas pessoas, nada mais natural do que ir diretamente a fonte das informações, ou seja, nada mais natural do que recorrer as pessoas, as quais produzem a informação, e não aos veículos que somente a transportam, as máquinas.

Mesmo que inconscientemente, todos estamos em algum nível viciados em informação. Não somente nós, que vivenciamos a tecnologia diariamente, mas em diferentes níveis virtualmente todos estão parcialmente dependentes/viciados em informação.

Um exemplo é que, atualmente, dificilmente encontramos um conhecido que não possua ao menos uma conta em um serviço de mensagens instantâneas (MSN/Windows Live Messenger é o mais comum entre as pessoas não técnicas) e um perfil em alguma rede social (Orkut é o mais comum entre as pessoas não técnicas).

Todos estão com uma certa frequência acessando/utilizando esses serviços. Isso não é necessariamente ruim. Quando utilizados como apenas mais uma forma de manter contato com outras pessoas, ou mesmo como uma forma de organizar encontros reais entre pessoas que de outra forma dificilmente se conheceriam, é até saudável utilizar esses serviços.

O problema começa a ocorrer quando a pessoa substitui a vida social real pela vida “social” virtual, utilizando somente o meio virtual para o contato com outras pessoas e ignorando completamente sua necessidade natural de contato humano/físico.

Em relação a tempo, salvo o tempo em que você vende seu conhecimento para seu empregador, você é quem decide o que fazer de seu tempo livre. Se você não tem nenhum tempo livre e, ao invés disso, consome todo seu tempo trabalhando, talvez seja o caso de reavaliar sua vida.

Vale realmente a pena ter todo o seu tempo ocupado com trabalho ? A recompensação financeira conseguida com isso realmente vale a pena todo o tempo perdido, o qual certamente não será lhe devolvido novamente e o qual lhe fará falta, senão em pouco tempo, mas ao menos de médio a longo prazo ?

É essencial, mesmo que por vezes complicado, ter ao menos algum tempo livre para se divertir, interagir com outras pessoas reais (não virtuais), se dedicar a hábitos saudáveis (como a leitura citada) e, em última instância, até mesmo ter algum tempo livre para você mesmo, mesmo que seja para simplesmente não fazer coisa alguma, somente para descansar.

Estou convencido de que uma grande área de pesquisa/trabalho passará a ser a psicologia, uma vez que a sociedade atual está se perdendo com tamanha intensidade em meio a tanta tecnologia que certamente precisaremos cada vez mais ser analisados e ter nossos problemas entendidos para podermos voltar a viver como antigamente, quando não tínhamos a interferência da tecnologia atrapalhando as relações humanas.

formspring.me : Resposta a nova pergunta : estupidez humana, sociedade e consumo

March 3rd, 2010 No comments

Até que consiga encontrar uma forma um pouco mais automatizada de publicar respostas a perguntas selecionadas que me fazem em meu perfil  no serviço formspring.me, vou esporadicamente publicar as perguntas que acreditar interessantes e suas respectivas respostas como posts por arqui.

Essa é a primeira. Perguntem mais e eu provavelmente terei mais material para publicar :-)


Pergunta :


Partindo da citação <quote>Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta</quote> Como você entende hoje a estupidez humana, a sociedade de consumo. by geekbr


Minha resposta :


A estupidez humana sempre existiu e sempre existirá. Infelizmente, parece ter piorado com o tempo.

Procuramos formas de obter satisfação nos afastando cada vez mais uns dos outros, sendo cada vez mais egocêntricos, nos importando cada vez menos com nossos pares.

Criamos redomas artificiais e tentamos curar os problemas que isso nos traz recorrendo ao consumismo desenfreado, mas não conseguimos entender que isso não nos vai trazer a felicidade que teimamos em afastar quando optamos por nos afastar uns dos outros.

Dizem que umas das características do ser humano que o diferencia dos demais seres e que o torna a espécie dominante é a capacidade de armazenar informações e transmití-la aos seus semelhantes.

Isso foi a base da evolução humana e foi o que nos permitiu construir sob o que nossos antepassados criaram. É por isso que não precisamos redescobrir a eletricidade a cada nova geração, por exemplo, mas sim evoluir a partir de conceitos básicos compreendidos e passados a frente por gerações anteriores.

Infelizmente, porém, se por um lado somos capazes de compreender conceitos abstratos e complexos relacionados a ciência, matemática, física e demais áreas do conhecimento, somos um zero a esquerda no que diz respeito a conhecermos a nós mesmos.

Começamos a entender a importância que temos uns para os outros somente próximo ao final de nossas vidas. E mesmo sofrendo muito para começarmos a entender isso, somos seres ruins o bastante para não tentarmos transmitir a nossas gerações futuras a importância disso.

Parece que sentimos prazer em deixar que cada nova geração cometa os mesmos erros, sofra o mesmo que sofremos e tenha um início da compreensão de quanto tempo de vida perdeu tentando se enganar somente ao final de sua existência.

O ciclo sempre vai se repetir. Não me orgulho nada disso, tenho vergonha em fazer parte de uma espécie tão mesquinha e egoísta, que impede sua própria evolução por não se importar em sua evolução como espécie, mas sim no quanto pode ter de vantagem hoje.

Imediatistas e egocêntricos, somos uma sociedade patética. Nos julgamos donos de tudo e na verdade não somos donos de coisa alguma. Não temos a mínima importância no mundo e no universo, mas acreditamos, de alguma forma, que nossos bens materiais e nossa superioridade imaginada como espécie dominante realmente nos torna importantes.

Nos maravilhamos com a tecnologia e passamos a tê-la como nosso principal companheiro, deixando de lado nossos pares reais de carne, osso e alma, dando pouca ou nenhuma importância aos mesmos.

O sentido da vida não é 42. O sentido da vida, em minha opinião, é conseguirmos evoluir não tecnologicamente, mas sim afetivamente, como espécie, junto a nossos pares, de forma amigável. Uma evolução espiritual, como queira.

Nunca vamos entender e conseguir explicar questões relacionadas ao metafísico, sobrenatural, a alma ou como o queira chamar se não conseguirmos compreender conceitos tão simples como amizade, convivência em sociedade, paz, amor e respeito.

Felizmente, não são todos de nossa raça que são realmente repugnantes conforme descrito aqui. Algumas pessoas, infelizmente a minoria, conseguem compreender o que é realmente importante.

Infelizmente, essas pessoas são ignoradas pela grande maioria de nossa sociedade e taxada como “pobres”, por optarem por não ostentar luxo e bens materiais, mas sim por tentarem simplesmente se importar uns com os outros.

Assuma sua idiotice e salve a humanidade

February 15th, 2010 No comments

A menos que você seja um adolescente ou tenha sérios problemas para se desvencilhar dessa época de sua vida, você certamente já deve ter compreendido que não conseguirá aprender tudo.

É impossível uma única pessoa, por mais inteligente que seja, conseguir aprender tudo em seu relativamente curto tempo de vida. Na verdade, você não precisa saber tudo. Nunca precisou. Isso nunca foi e nunca lhe será exigido.

Porém, como humanos, raça extremamente pouco evoluída, ainda temos um instinto primário que nos leva a acreditar que podemos fazer tudo, lidar com qualquer situação, resolver qualquer problema e ter as respostas para qualquer pergunta.

Muitos reconhecem isso como arrogância, pretensão ou soberba. Eu acredito que possa sim existir uma pitada desses sentimentos envolvida, mas acredito que o ser humano provavelmente deve ter algo próprio de sua raça que o faça agir dessa forma nas mais variadas situações.

Muitos irão citar um longo caminho ainda a ser trilhado em nosso crescimento espiritual no objetivo de nos tornarmos seres melhores. Eu não conheço nada de espiritualismo e não estou envolvido com nada relacionado e, portanto, não posso comentar, mas gostaria de poder confiar que um dia poderemos nos livrar dessas imperfeições.

O fato é que nos parece comum faltarmos com a verdade em relação a nossos conhecimentos e nossa capacidade de lidar com um desafio e/ou situação complexa. Por vezes assumimos que podemos lidar com algo que nem mesmo temos idéia do que seja, confiando que provavelmente conseguiremos, de alguma forma, chegar a uma conclusão satisfatória.

Muitas vezes conseguimos, mas é comum observar situações constrangedoras e difíceis de serem solucionadas somente porque alguém acreditou que seria capaz de assumir uma responsabilidade muito grande relacionada a algo para o que não estava preparado.

Uma forma de evitar isso é, primeiramente, tentar evitar o complexo de super-homem/super-mulher e acreditar que consegue dar conta de tudo. Obviamente, isso é impossível e não é somente porque achamos que não o seja que realmente o deixará de ser.

Estive lendo um ótimo texto (encontrado em uma indicação de @fzero via Twitter) no qual o autor cita que o conhecimento humano pode ser dividido basicamente em três grandes grupos : o que você sabe que sabe, o que você sabe que não sabe e o que você não sabe que não sabe.

O que você sabe que sabe é simples e engloba todo o conhecimento que vocẽ tem certeza que possui. Pense em qualquer coisa que você possa responder com propriedade e exatidão prontamente quando questionado. Isso é o que você sabe que sabe.

Mais importante do que o conhecimento que você sabe que sabe é o conhecimento que você sabe que não sabe. Basicamente, é estando ciente que você não sabe sobre um determinado assunto que você se livra de problemas maiores, evitando situações e/ou tarefas para as quais você sabe que não está preparado.

Porém, o terceiro grupo, o conhecimento que se encaixa no grupo do que você não sabe que não sabe é o mais importante dentre esses três grandes grupos citados.

O conhecimento que se encaixa no grupo do que você não sabe que não sabe é a grande armadilha pela qual você por vezes se deixa ser pego. Pense nas diversas situações em que você não tinha certeza se sabia sobre algo e optou por assumir uma responsabilidade relacionada a isso.

Situação comum : uma reunião, você sendo questionado sobre um assunto que você não domina, mas que você acredita não ser tão complexo e, instintivamente, decide não ser tão complexo a ponto de ser um impeditivo para o avanço de um determinado projeto.

Você simplesmente assume que conseguirá lidar com o problema e, talvez por ter passado por situações e/ou problemas semelhantes anteriormente, por comparação, deixa o projeto prosseguir acreditando que o ponto em questão pode ser solucionado de forma trivial.

Pouco tempo depois, após a reunião, você descobre que o ponto em questão é extremamente complexo e demandará mais pessoal, equipamento ou verba do que você havia imaginado, claramente caracterizando um ponto crítico e de alta importância, o qual não deveria ter sido assumido como simples.

Pessoalmente, nunca passei por situações como essa, mas já cheguei a estar muito próximo das mesmas (e, felizmente, consegui evitá-las) e presenciar situações constrangedoras pelas quais pessoas que assumiram saber sobre algo e não sabiam passaram.

O autor do texto citado anteriormente cita que o mais importante não é você somente saber muito, mas sim ter ciência do que você não sabe e, ainda mais importante, tentar evoluir no sentido de, cada vez mais, manter o conhecimento do grupo que você não sabe que não sabe mínimo.

Veja bem, a idéia não é simplesmente absorver todo o conhecimento existente, o que sabemos ser impossível, mas sim tentar manter o grupo de conhecimento das coisas que você não sabe que não sabe pequeno, seja tomando ciência de que você não sabe sobre algo e, portanto, adicionado esse conhecimento a lista das coisas que você sabe que não sabe ou realmente aprendendo sobre isso, o que o adicionaria na lista das coisas que você sabe que sabe.

A idéia é agir defensivamente, no intuito de não causar danos a você ou a terceiros tentando se meter com assuntos que você certamente não conhece ou, pior ainda, com assuntos que você nem mesmo tem certeza se não conhece.

Não é feio e nem proibido assumir que você não conhece sobre um determinado assunto, visto que, conforme já citado, é impossível para qualquer ser humano saber tudo sobre todos os assuntos.

Nem mesmo aquela pessoa super inteligente que você conhece e acredita ter a resposta para todas as perguntas sabe realmente tudo sobre todos os assuntos.

Muitos sabem muito sobre um assunto ou sobre um grupo de assuntos específicos, mas provavelmente sabem pouquíssimo ou mesmo nada sobre outros assuntos totalmente não relacionados. É normal, não devemos nos sentir ruins por não sabermos tudo.

O mais importante é, novamente, não tentarmos esconder nossos sentimentos e esconder ou camuflar esse desconhecimento, assumindo riscos desnecessários, os quais provavelmente irão gerar situações muito mais complexas e difíceis de serem solucionadas posteriormente.

É preferível passar por cima do ego e perguntar sobre algo que não se conhece, o que por si só já ajuda a aumentar a lista dos conhecimentos que você sabe que sabe, do que não perguntar e fingir que sabe.

Eu tenho um comportamento que muitos acreditam ser ruim, mas do qual não pretendo me livrar tão cedo : ser pessimista. Sim, eu sempre assumo o pior cenário e trabalho no sentido de estar preparado para o pior.

Pode ser algo psicológico, mas posso garantir que esse comportamento me livrou de muitos problemas. Não queira assumir uma grande responsabilidade sem estar ciente e preparado para todos os riscos que a mesma possa trazer.

Pesquise, questione, aprenda, transfira conhecimento, certifique-se de que todos os envolvidos estejam cientes dos desafios, dos possíveis problemas, dos riscos envolvidos e das formas imaginadas para contornar essas dificuldades.

Lembre-se que é perfeitamente possível ninguém de sua equipe ter levantando uma questão para a qual a resposta ainda se encontre pendente em sua cabeça simplesmente porque se trata de um conhecimento que todos os envolvidos não sabem que não sabem.

Você também pode não saber a resposta, mas ao menos poderá contribuir fazendo com que os envolvidos retirem esse conhecimento de suas listas das coisas que não sabem que não sabem e o adicionem a lista de coisas que sabem que não sabem, onde o mesmo é bem menos perigoso.

Obviamente, tendo ciência da existência da questão pendente, todos poderão trabalhar juntos em uma forma de solucioná-la e trazê-la para a lista de conhecimentos que o grupo como um todo sabe que sabe.

Eu passei por inúmeras situações em que fui considerado inteligente e/ou capaz/competente não por dar uma solução para um problema, mas sim somente por ter apontado problemas que detectei e não foram detectados por outros.

Novamente, é uma prova de que simplesmente aumentar a quantidade de conhecimentos que você sabe que sabe não é o único ponto importante em sua vida, mas sim também aumentar a lista de conhecimentos que você sabe que não sabe, através da diminuição da lista dos conhecimentos que você não sabe que não sabe.

Seu cérebro como produto : prepare sua vitrine

February 8th, 2010 No comments

Atualmente, vivemos uma fase de transição um pouco complexa, nebulosa e indefinida. Provavelmente já houveram fases semelhantes em outras épocas, uma vez que tudo no mundo é cíclico.

Não somos mais a geração Coca-Cola, não somos a geração das grandes guerras (apesar das guerras ainda existirem, em menor escala, mas não em menor número de vítimas), não somos a geração de coisa alguma.

Nada assustadoramente grande e importante aconteceu em nossa geração. Aliás, eu nem faço parte da geração atual, já que não sou adolescente há um bom tempo, mas prefiro simplesmente ignorar esse fato.

Minha geração (infância nos anos 80 e adolescência nos anos 90) não teve nada de extremamente importante acontecendo globalmente enquanto se desenvolvia.

O resultado é que atualmente somos um bando de quase tiozinhos com saudades de modas e cultura tosca dos anos 80. Sim, sinal de decadência, mas fazer o quê ? A idade chega e quanto a isso não há nada a ser feito.

Porém, é importante notar que, por mais que a criação não possa ser atribuído a nossa geração, fomos nós, os adolescentes dos anos 90, que começamos a realmente utilizar computadores e fazer do uso dos mesmos uma mania presente em nosso dia-a-dia, assim como a TV (infelizmente) ainda é presente atualmente na vida de nossos pais.

A geração seguinte, os nascidos nos anos 90 e vivendo sua adolescência atualmente, já nasceram em um mundo onde o uso de computadores e a Internet era algo completamente normal. Sim, é estranho imaginar isso, mas existiu um tempo em que se utilizava computadores desconectados da Internet.

Reconheço, uma grande parte das possibilidades atuais não existiam sem a Internet e a principal vantagem, a possibilidade do alcance do que você produz ser global, não era sequer imaginada.

Resumindo, era um tempo chato para os padrões atuais e quem utilizava computadores nessa época (e, obviamente, anteriormente a essa época) realmente podia ser chamado de “nerd”.

Apesar de ser uma época desconectada, foi necessária, visto que durante a mesma grande parte das tecnologias existentes atualmente foi inventada. Hoje em dia, qualquer um é rotulado de “nerd”, já que o termo está na moda.

Naquela época, no entanto, somente quem realmente gostava da coisa o fazia, visto que era necessário ter muita imaginação para sentar em frente a uma telinha ilhada, desconectada, por horas e horas, conversando somente com a máquina e não com outras pessoas.

Confesso que, atualmente, apesar de obviamente saber que existe utilidade em computadores desconectados, os mesmos perdem praticamente 90% de sua utilidade caso estejam sem acesso a Internet. E estou comentando somente o uso doméstico que fazemos dos mesmos.

Profissionalmente falando, na área em que trabalho, a falta do acesso Internet só serve para aumentar a integração dos funcionários na degustação do líquido sagrado nosso de cada dia, o santificado café.

Sou um ser estranho, visto que iniciei nesse mundo de tecnologias acompanhando o surgimento comercial da Internet e o início do uso massificado do acesso a mesma, e estou entrando em uma era em que o não acesso a Internet significa, na prática, não ter chance alguma de algum tipo de sucesso profissional.

Atualmente, não somente os profissionais da área de tecnologia, mas qualquer tipo de profissional, sem o louvado acesso a Internet, no mínimo, não consegue executar suas funções profissionais de forma correta, independente da complexidade do mesmo.

A perda do acesso, atualmente, é obviamente muito mais sentida e indesejada do que a perda da televisão o era em gerações passadas. A TV, por mais que tenhamos tentado reverter esse quadro, sempre foi um meio muito mais de entretenimento do que de cultura.

A Internet, por outro lado, apesar de ter todo o entretenimento e a baboseira necessária para quem os procura, oferece uma gama extremamente mais extensa de material cultural para os que estiverem realmente interessados.

Um reflexo disso é que uma quantidade extremamente grande de ocupações e até mesmo de profissões foram criadas nos últimos anos. Profissões essas que nem mesmo eram sequer imaginadas como possíveis há poucos anos.

Utilizamos a Internet para nos divertir, para estudar, para trabalhar, para namorar e, provavelmente, qualquer outra atividade humana que você possa imaginar possui uma forma de ser reproduzida na Internet. No mínimo, ao menos pode ser facilitada.

Isso nos leva ao fato de que, já há alguns anos, e isso tem se intensificado ainda mais com a Internet e as tecnologias que dela se utilizam, o trabalho humano passou a ser essencialmente intelectual.

Obviamente, sempre existiu trabalho intelectual e sempre existiu o trabalho braçal. Também obviamente, isso não significa o fim completo do trabalho braçal, mas sim um foco cada vez menor no mesmo, somente o estritamente necessário, e um maior foco no conteúdo produzido através do uso do intelecto.

O que me leva ao assunto principal desse post (sim, eu utilizo idéias introdutórias muito maiores do que o ponto principal, me processe) : em um futuro próximo, nossa principal ferramenta de trabalho será o cérebro.

Para algumas profissões, como a que exerço, por exemplo, isso já é uma realidade e, na verdade, o tem sido basicamente desde sua invenção. O fato é que um número muito maior de profissões baseadas no pensar e no intelecto foram e continuarão a ser criadas.

Sendo o cérebro nossa principal ferramenta de trabalho, não seria comum que, dentro de algum tempo, venhamos a notar uma maior necessidade de substâncias que possam estimular o cérebro, da mesma forma que, nas épocas do trabalho baseado na força física, nos era útil ter ferramentas para melhorar nosso desempenho físico ?

Veja bem, não estou me referindo a drogas ilegais. As mesmas sempre existiram e provavelmente sempre existirão. A forma e a apresentação mudarão, mas as mesmas sempre estarão lá, disponíveis para quem quiser se destruir.

Me refiro a formas não prejudiciais a saúde de estimular o pensamento e o trabalho cerebral. Formas legais, sem que tenhamos que nos render a perigosas soluções milagrosas ilegais e seus conhecidos efeitos colaterais.

Ter a mente livre de preocupações, bem como ter uma boa dose de inspiração são pontos que, em minha opinião, são essenciais para que o trabalhador intelectual possa produzir e desempenhar bem suas funções.

O raciocínio lógico exige concentração, um certo desligamento do mundo real, uma imersão no problema e uma volta a realidade com soluções e respostas que resolvam problemas reais. É quase que um estado de transe.

Desenvolvedores de software provavelmente já conhecem bem esse estado. Mesmo eu, que não lido com desenvolvimento diretamente em meu dia-a-dia, sinto frequentemente que me encontro nesse estado fora da realidade.

Caso não queiramos rumar em direção ao buraco sem fundo da depressão, precisamos não somente da motivação financeira materializada na figura de nosso salário pago, mas também de inspiração para produzirmos.

Da mesma forma que um escritor precisa se inspirar para escrever seus textos ou um pintor precisa de inspiração para desenvolver suas obras, o profissional intelectual precisa de inspiração para conseguir produzir, dada a quantidade assustadora de informações com as quais o mesmo lida diariamente no cumprimento de suas funções.

Conhecendo bem nossos governantes e a sociedade retrógrada e empacadora do progresso em que vivemos, obviamente substâncias inspiradoras, caso venham a um dia existir (e não vejo o motivo para que não venham a existir), demorariam pequenas eras para serem aprovadas como soluções legais para problemas reais.

Dito isso, pergunto : o futuro nos reserva uma nova droga, mesmo que temporária, a qual nos preencheria com a inspiração necessária para que possamos continuar a produzir em uma sociedade totalmente baseada na informação ?

Alimento para o pensamento. Deixem suas opiniões nos comentários e, por favor, respeitem o português. Ele não somente fornecer seu pães.


Como não se dar mal : pergunte-me como!

February 6th, 2010 6 comments

Uma das coisas que sempre me questionei na vida foi porque os adultos insistiam tanto em coisas que, à época, em minha infância, pareciam tão exageradamente chatas.

Seja uma boa pessoa. Seja educado. Estude. Não tenha vícios. Não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem. Coisas obviamente chatas e nada interessantes quando estamos no início de nossas vidas.

Na época adolescência nos parecem ainda pior, uma vez que nessa época estamos atolados de hormônios ocupando o lugar do cérebro e tendemos a agir de forma insana muito facilmente.

Quando você começa a entrar na vida adulta, começa a sentir uma dificuldade imensa em entender tudo. A vida passa a ficar bem mais complicada e tudo parece algo extremamente complicado e de outro mundo.

É natural, já que você passa a ter que se comportar e agir como adulto caso queira ser respeitado e ter chance de conseguir algo na vida. Ninguém gosta de um “adultocente” (um adulto com comportamento adolescente), por mais que digam o contrário e que possa lhe parecer “cool” ter sempre uma atitude jovem.

Ter um espírito jovem não significa fazer as mesmas bobagens que você fazia na adolescência, com toda a falta de experiência e todos os hormônios que podiam ser utilizados como desculpa. Parece óbvio, mas muito gente não entende isso.

Aliás, muito gente não entende conceitos básicos. Aliás, muita gente parece ter que ser agredida fisicamente para começar a fazer os neurônios funcionarem no tranco, dada a quantidade de bizarrices e vidas desperdiçadas que vemos por aí.

O problema principal é que as pessoas parecem utilizar o cérebro somente esporadicamente. Sério, esse monte de peso que você possui dentro de sua caixa craniana não está aí somente para fazer peso. Use-o.

O ser humano possui habilidades espantosas, mas  existem pessoas que atendem o instinto selvagem de forma tão rápida e conseguem acionar seus orgãos menos intelectuais de forma tão fácil que parecem nem precisar ter um cérebro para acioná-los.

Infelizmente, mesmo sabendo que o cérebro é o que comanda todos os outros membros e orgãos do corpo e por isso é utilizado quase que inconscientemente de forma constante, as pessoas parecem esquecer que ele existe, na grande maioria das vezes.

Voltando ao assunto dos conselhos paternos, na vida adulta você começa a ter lampejos de entendimento do significado dos mesmos. Ainda os tem como chatos, mas entende que são necessários.

Nossos pais não nos diziam detalhes indicando a razão de você realmente ter que seguir seus conselhos simplesmente porque não estávamos preparados intelectualmente para entendê-los.

O mais lamentável é que, na vida adulta, muitas pessoas continuam parecendo não ter a capacidade intelectual de entendê-los. Não é culpa do cérebro. Como um orgão, ele precisa ser exercitado ou fatalmente irá atrofiar.

E não há uma forma de exercitar o cérebro senão consumindo cultura. Lendo, escrevendo, vendo filmes interessantes, discutindo sobre questões importantes, conhecendo opiniões e pontos de vista e compartilhando suas opiniões e pontos de vistas. Tudo isso exercita o cérebro.

Da mesma forma que sentimos dor nas pernas e nos braços quando vamos à academia em uma primeira vez, não é fácil iniciar sua vida cultural. Felizmente, da mesma forma que seu corpo se adapta aos exercícios e passa a suportar cargas mais intensas, seu cérebro se alimenta da cultura e passa a solicitar mais.

De forma similar aos exercícios, cultura também faz bem a saúde, mais especificamente a sua saúde mental. E todos sabemos que somente exercitar um em detrimento do outro não é uma boa idéia. Mente sã, corpo são.

O que é difícil de entender é que as pessoas da sociedade atual possuem a sua disposição uma ferramenta global, altamente útil e repleta de todas as forma de cultura como a Internet e não a utilizam.

Óbvio que se você está lendo este texto você utiliza a Internet, visto que não teria acesso ao mesmo de outra forma. É importante notar, no entanto, que ter acesso a Internet não necessariamente significa que você realmente a utiliza, que você realmente tira algum proveito da mesma.

Claro, com a Internet se tornando nossa segunda casa, nada mais natural do que se divertir com a mesma, procurando distrações e humor. Mas a Internet não serve somente para bater papo com seus amiguinhos e alimentar seus pequenos animais em suas minúsculas fazendas virtuais.

Você tem a disposição uma quantidade virtualmente infinita de informações sobre virtualmente qualquer assunto. Me espanta as pessoas ainda procurarem cursos e treinamentos nos dias atuais, quando tudo o que se precisa pode ser encontrado online.

Obviamente, é necessário foco para não se distrair e passar o tempo todo consumindo conteúdo inútil, mas o conteúdo relevante e útil está disponível e facilmente acessível. Na maioria das vezes, de forma gratuita.

É incompreensível ver pessoas reclamando de falta de oportunidades, se lamentando por não conseguirem um emprego ou uma promoção devido a não conhecerem um assunto específico ou mesmo pagando caros centros de ensino para tentarem adquirir conhecimento que já está livremente e gratuitamente disponível na Internet.

Uma pesquisa de 5 segundos, seguida de um clique de botão lhe separam da maioria do conhecimento que você precisa. Tecnologias atuais lhe permitem emular ambientes de tecnologia complexos nos quais virtualmente qualquer tipo de solução pode ser testada.

Nunca foi tão fácil ser autodidata. É só ter um pouco de força de vontade e perder alguns minutos e você certamente consegue encontrar qualquer coisa que precisar, bem como aprender sozinho o que precisa ou tem vontade de aprender.

Quanto mais você aprende, mais compreende a imensidão de assuntos interessantes e mais tem vontade de aprender. Seu cérebro lhe agradece, sua saúde lhe agradece, seus familiares e amigos lhe agradecem, a sociedade lhe agradece e você passa a ter a capacidade de entender que, lá na infância, os conselhos que seus pais lhe davam são totalmente relevantes.

São formas simplificadas de lhe dizer que você pode ser feliz e que, para isso, é só seguir as pistas que a vida lhe dá gratuitamente. Tudo e todos com os quais você tem contato formam sua vida e fazem parte da mesma.

Você começa aprendendo com as mais próximos, seus pais, e continua seguindo as dicas que lhe são dadas continuamente, mesmo que indiretamente, até o final de sua vida. A isso damos o nome de evolução.

Quem poderá nos defender ?

February 2nd, 2010 4 comments

Mais uma vez, contrariando as indicações de tudo e de todos, estive pensando sobre o futuro, minha condição de nerd e a sociedade estranha na qual estou inserido.

Nós, nerds, apesar de sermos paparicados pelas empresas criadoras de tecnologias, na esperança de que sejamos formadores de opiniões e espalhemos nossas opiniões sobre seus produtos entre nossos semelhantes (e, principalmente, para os não semelhantes), somos na verdade meros objetos sendo utilizados.

Inicialmente, acreditamos que as empresas desenvolvedoras de tecnologia realmente desenvolvem produtos pensando em nosso perfil. Porém, infelizmente, pouco tempo depois, caímos na realidade e percebemos que a realidade é bastante diferente.

Atualmente, os gadgets mais interessantes, os que possuem maior capacidade de criar um novo mercado ou de se estabelecerem como uma nova tendência e cair nas graças do uso massificado não são muito amigáveis para os nerds.

Obviamente, são atraentes como qualquer nova tecnologia o é. Porém, não são atraentes o suficiente para que passem a ocupar um espaço dedicado e garantido em nossa vida.

Celulares, por exemplo, por mais que eu os odeie, passaram a ocupar um local dedicado e garantido em minha vida, por mais que eu me arrependa de dizer disso. São um caso específico, na verdade, pois, ao menos em meu caso, são um mau necessário.

Mas servem para ilustrar, nesse contexto. O ponto é que se tornou algo presente no dia-a-dia de todos, algo massificado, que virtualmente todos possuem e não sabem mais como viver sem. Em outras palavras, ocupou seu lugar em nossas vidas.

Os gadgets atualmente lançados, mais atraentes ao público em geral e que possuem capacidade de conquistar seu lugar em nossas vidas, no entanto, pecam quando o assunto é conquistar realmente um lugar na vida de nossa classe, nerds estranhos segundo a maioria da humanidade não estranha.

Eles não possuem a “hackeabilidade” necessária. Não são dispositivos que permitam que façamos o que quiser com os mesmos. Obviamente, nenhum dispositivo de consumo massificado terá níveis de “fuçabilidade” muito altos, por motivos óbvios : o público alvo pouco se importa com esse item.

Porém, para nós, nerds, esse item é extremamente importante, senão essencial. É aceitável que o gadget, em última instância, seja fornecido com um conjunto limitado de recursos que permitam sua personalização de acordo com as preferência dos usuários mais exigentes.

O que não é aceitável, a meu ver, é que esses mesmos gadgets não permitam modificação alguma e, por vezes, até mesmo tornem isso algo ilegal. A minha opinião é que, contanto que eu não esteja fazendo algo realmente ilegal, sou eu quem deve decidir o que eu posso e o que eu não posso fazer com um gadget pelo qual eu paguei.

Infelizmente, ultimamente, o que venho percebendo é que, cada vez mais, os novos dispositivos de desejo são fornecidos de fábrica com opcionais que não são, em primeiro momento, indesejáveis para o público em geral mais que o são para o nerd padrão.

DRM, por exemplo, é algo que se encaixa nesse contexto. Se eu comprei o gadget e se eu comprei o conteúdo, porque diabos a empresa que me vendeu o dispositivo é que tem que decidir que eu só poderei usar o conteúdo em um único dispositivo ?

Por quê a empresa que desenvolveu o leitor de livros eletrônicos tem que decidir que o livro que eu adquiri só pode ser lido no dispositivo de leitura eletrônica que ela ou seu parceiro comercial me vendeu ?

Eu posso muito bem querer ler esse livro em meu desktop, em meu smartphone, em um laptop ou em um netbook. Sendo eu o dono da cópia adquirida e possuíndo todos esses gadgets, porque não poderia usar o conteúdo dessa forma ?

São todas formas moralmente legais de utilização. Porém, infelizmente, os dispositivos atuais estão sendo distribuídos com mecanismos que impedem que algo tão simples como o cenário descrito acima seja possível.

Se eu quiser instalar um aplicativo de um terceiro em meu dispositivo eu perco totalmente o suporte ao dispositivo ? Não seria mais correto eu, no máximo, não ter suporte ao aplicativo de terceiro em questão e não a todo o dispositivo ?

Pior, isso significa que, na visão da empresa que desenvolveu o produto, eu sou agora um fora da lei ? E, como fora da lei, estaria eu sujeito a penas legais ? Seria justo eu ser punido legalmente somente por estar usando meu dispositivo, comprado legalmente, da forma que eu acredito ser a forma correta e não da forma que a empresa desenvolvedora da tecnologia definiu como correta ?

Pense bem, a minha forma de uso não é moralmente incorreta. Eu não estou deixando de pagar ninguém, não estou utilizando conteúdo adquirido por meios não oficiais e ilegais, mas se não adquiri o conteúdo (seja ele um aplicativo, um livro eletrônico, uma música ou qualquer outro conteúdo) diretamente da empresa que desenvolve a tecnologia ou de seus parceiros eu estou agora, oficialmente, sendo reconhecido como um usuário ilegal ?

Já não é ruim o suficiente os gadgets atuais serem severamente limitados ? Já não é feio o suficiente essas empresas lançarem produtos artificialmente limitados somente para terem chance de lançarem novas versões continuamente, cada uma acrescentando somente uma pequena funcionalidade dentre todas as que sabemos que poderiam existir desde a primeira versão do produto ?

Agora, além de sermos obrigados a conviver com produtos artificialmente limitados, com preços inflados totalmente fora de nossa realidade, ainda temos nossa liberdade de utilização de algo que adquirimos legalmente sendo cerceada de acordo com os interesses de quem os desenvolveu ?

Essas empresas não entendem que, a partir do momento que o produto é vendido, a propriedade daquela cópia do mesmo passa a ser do indivíduo que a adquiriu e não mais delas, as empresas criadoras ?

Você aceitaria adquirir um carro se soubesse que a empresa poderia, remotamente e automaticamente, sem o seu consentimento e sem o seu conhecimento prévio, esgotar o tanque de gasolina caso você circulasse por estradas que as montadoras acreditassem que não fossem interessantes ?

Você aceitaria ser taxado de ilegal caso decidisse ir até a praia no final de semana com seu carro e a estrada utilizada como caminho para seu passeio não fosse administrada pela montadora ou por um de seus parceiros ?

Não ? Então por quê devemos aceitar situação semelhante com os dispositivos tecnológicos que adquirimos ? Por quê aceitar que a empresa que desenvolve nosso leitor de livros eletrônicos apague remotamente de nossosdispositivos de leitura, sem nosso consentimento, um livro pelo qual pagamos ?

Por quê aceitar que seu novo gadget seja artificialmente limitado, não permita a instalação de aplicativos de terceiros para execução de músicas e não permita que as mesmas sejam transferidas de seu desktop para o mesmo caso as mesmas não tenham sido adquiridas da empresa desenvolvedora da tecnologia em questão ou de seus parceiros ?

Visão deturpada da realidade ? Alarmismo inconsciente ? Visão exagerada de um futuro que obviamente não será tão ruim assim ? Sinto dizer, mas isso já ocorre hoje em dia.

Bem-vindo ao presente.

O que lhe fortalece é o que lhe mata

July 18th, 2009 2 comments
Não sei ao certo se já ouvi ou li isso em algum lugar, mas o fato é que a frase título desse post me veio a cabeça hoje pela manhã, em mais uma das muitas massagens intelectuais que teimam em não me abandonar.

Provavelmente eu estava pensando em algum outro assunto, mas acabei entendendo que é possível perceber claramente a comprovação da verdade contida nessa frase em muitas situações e em muitos campos do conhecimento humano.

Provavelmente estou me apropriando de um pensamento de um sábio chinês, mas eu não fui capaz de pesquisar se é esse realmente o caso. O que importou, nesse caso, foi o momento, uma vez que eu já estava percebendo o padrão do esquecimento das idéias sendo iniciado.

É interessante notar que o conceito contido nessa frase, se relacionado a tecnologia, pode nos levar a também relacionar esse conceito a conhecida idéia de que a maioria das pessoas estão dispostas a aceitar algo de qualidade mediana caso isso lhe traga algum benefício não oferecido pelo produto/tecnologia/serviço de qualidade superior.

E, no final, após sofrermos muito tentando compreender porque isso ocorre, podemos ir tão fundo quanto alcançar motivos psicológicos, tanto que, a partir de um certo ponto, é menos desgastante nos rendermos a mediocridade e aceitarmos que um produto/tecnologia, por vezes, tem que oferecer menos para, na visão de seus possíveis usuários, oferecer mais.

Less is more, como diziam os sábios, os quais já refletiram muito sobre esse assunto há tempos atrás e nos deixaram suas impressões do mundo, do ser humando, do universo e tudo mais. Mesmo que nós, Unixistas, saibamos que less e more são criaturas independentes em nosso mundo, representando conceitos opostos.

Uma tecnologia ou produto pode facilmente morrer não por ser ruim, mas sim por oferecer funcionalidades ou liberdades demais. Sim, estranho, e eu ainda sou resistente a aceitar essa idéia, como a maioria dos poucos leitores deste blog provavelmente o são.

Mas o fato é que, infelizmente (ou felizmente, tudo possui ao menos dois pontos de vista), o mundo não é formado de pessoas que compartilham nossa mesma visão de tudo e todos. Por isso, o que é ruim para nós pode ser completamente aceitável, ou mesmo perfeito, para outros.

Por vezes, um subconjunto de um produto ou tecnologia, mesmo sendo incompleto e, em nossa visão técnica da realidade, inaceitável para os mais exigentes, é exatamente do que a maioria das pessoas precisa. Ou, pelo menos, do que a maioria das pessoas vai pensar precisar após uma certa dose de psicologia e marketing serem embrulhados com o produto ou tecnologia em questão.

Lógico, sempre existirão os mais exigentes, que não aceitarão algo de qualidade duvidável somente pelo simples fato de serem, digamos, mais simples, para não recorrer a termos chulos.

Porém, a esses, pode ser atribuído um termo interessante inventado há um certo tempo : nicho. Sim. Nicho. O que desvia da curva padrão, do largamento aceito pelo público mediano, geralmente é o nicho.

E, apesar de sempre que leio a palavra nicho algo depreciativo me vem a mente, um nicho não é realmente algo ruim. É sim, obviamente, algo que não faz parte da realidade ou é objeto de desejo das massas e, só por isso, já tem seu valor. Mas é também algo que denota um público mais seletivo.

Se você não se contenta com o que lhe é oferecido, o padrão que é fornecido a todos, o mais estrategicamente e corporativamente viável para os fornecedores, a ponto de ser oferecido como o produto principal, desejado pela grande massa, você é seletivo e, provavelmente, faz parte de um nicho qualquer.

Depois de muito tempo, aprendi a aceitar que faço parte de diversos nichos. Sim, porque, como objetos passíveis de aceitarem inúmeras tags, podemos estar contidos em diversos nichos ao mesmo tempo, nichos não necessariamente relacionados entre si.

Gosto musical, preferência literária, tecnologias preferidas e muitos outros exemplos. Nichos existem em todos os lugares, para todos os surfadores da onda que desvia a curva.

Felizmente, nos tempos atuais, não somos mais tão excluídos da sociedade como éramos anteriormente. Ao contrário, atualmente, ser diferente é ser cool. Não que você tenha que ser diferente para parecer cool, até mesmo porque tudo que é forçado é facilmente detectável.

Também felizmente, como escritores pensadores de “nichos” nos fizeram perceber, a cauda é bem mais longa e, devido a isso, há espaço para qualquer idéia, pessoa, tecnologia, produto, vício ou “droga” preferida sobreviver e, com isso, novos e interessantes nichos serem criados.

A era da informação nos trouxe a sociedade dos nichos, da qual eu, orgulhosamente, começo a me aceitar como participante. E você ? Ainda vai continuar a seguir a curva padrão ?

Criando conteúdo a partir do Tomboy

June 14th, 2009 4 comments
Muitos já devem ter ouvido falar do Tomboy. É um simples e simpático utilitário de notas pessoais, no estilo Post-It, mas que utiliza o mesmo conceito de links de um Wiki para ligar idéias/notas.

Já havia começado a utilizá-lo há um bom tempo atrás, mas, por algum motivo que não me vem a mente no momento, simplesmente deixei de utilizá-lo e acabei esquecendo de sua existência.

Nos últimos dias, estava procurando uma solução para me auxiliar a anotar pensamentos e idéias rápidas, de forma simples, sem muita frescura, somente para que as mesmas não se percam. Com o tempo, de pois, as mesmas podem ser mais bem trabalhadas. O importante é, como em fotografia, capturar o momento.

O Tomboy é útil exatamente para isso. Você está lendo, ouvindo, escrevendo ou vendo algo e uma idéia interessante surge. Ao invés de se iludir tentando guardá-la na cabeça e correr o risco de perdê-la posteriormente, você simplesmente a anota em uma nota no Tomboy.

Durante os dois ou três dias em que recomecei a utilizá-lo, o Tomboy já me auxiliou a organizar idéias pessoais e profissionais e já consegui finalizar algumas tarefas que sempre ficavam pendentes por eu acreditar que eram muito simples para serem anotadas.

Ledo engano, visto que sempre acaba me esquecendo das mesmas e, no final das contas, nunca as realizava, já que nunca lembrava das mesmas ao emaranhado de idéias em ebulição que pintam em minha mente a todo momento.

Um do recursos que eu procuro em qualquer software que seleciono para incluir em minha rotina de uso é a capacidade de, além de ser simples, não atrapalhar. Ou seja, o software precisa fazer o que se propõe a fazer e não criar empecilhos e/ou dificuldades para que seu uso seja efetivo.

O Tomboy fornece isso, ficando lá, estacionado quietinho no painel do GNOME como todo applet bem comportado deveria fazer, sendo facilmente alcançado com um clique ou uma única combinação de teclas, aparecendo somente quando chamado e desaparecendo o mais rápido possível para não interferir no fluxo de trabalho.

Além dessas características, outra coisa que o Tomboy oferece é uma arquitetura de plugins. Ele já é fornecido com inúmeros plugins e possui diversos outros desenvolvidos por terceiros, os quais acrescentam funcionalidades interessantes.

Um exemplo são os plugins de sincronização de notas. Enquanto a sincronização de notas online não se estabelece como um recurso carimbado como estável e o serviço Snowy (o qual utilizará a nova Tomboy Web REST API para colocar suas notas na nuvem) não é oficialmente lançado, podemos fazer uso dos plugins de sincronização de notas em diretórios locais ou remotamente via WebDAV ou SSH, usando sshfs/FUSE.

Venho usando a sincronização de notas através do plugin de sincronização SSH, que utiliza a tecnologia FUSE para “montar” um espaço em um servidor remoto, via SSH, e armazenar as notas do Tomboy lá, remotamente.

Dessa forma, é possível ter acesso a suas notas a partir de qualquer computador que tenha o Tomboy instalado. Não possuo Microsoft Windows instalado, mas já testei o Tomboy em GNU/Linux e MacOS e existem versões para Windows. Suas notas em qualquer lugar, a partir de qualquer plataforma.

Por ser de fácil uso, o Tomboy lhe incita a escrever notas sobre os mais simples e, aparentemente, mais inofensivos pensamentos possíveis. Isso é ótimo, pois invariavelmente você acaba sempre se lamentando de ter esquecido uma boa idéia que lhe passou pela cabeça e acabou sendo esquecida.

Idéias boas são raras. Não devemos tentar ficar exercitando o cérebro tentando armazená-las indefinidamente. Além de ser quase impossível, existem outros usos mais nobres para nossas mentes do que ficar guardando cada pequeno pensamento. Deixe uma ferramenta como o Tomboy fazer o trabalho sujo para você.

Um outro exemplo de plugin que comecei a utilizar agora e que, acredito, passarei a utilizar com uma frequência muito maior daqui em diante é o TomboyBlogposter, um plugin para postar suas nota do Tomboy como posts em seu blog.

Este, senhoras e senhores, é o primeiro post que vos ofereço, diretamente do meu novo “bloco de notas” pessoal virtual, o Tomboy.

Geeks, nerds e a difícil fuga da depressão

June 13th, 2009 7 comments

Vem se tornando uma tendência. Diariamente, recebo pequenas provas de que, apesar da tecnologia nos trazer a possibilidade de termos contato com cada vez mais pessoas, a mesma também traz problemas que anteriormente seriam impensáveis e acaba nos afastando de muitas pessoas.

Tudo pode ser feito instantaneamente. E se existe essa possibilidade, então o lema agora é que assim deve ser. Afinal, por quê não aproveitar em sua totalidade tudo o que a tecnologia tem a nos oferecer ? O grande problema nisso é que, no meio do caminho, nos esquecemos que, para lidar com a tecnologia, ainda precisamos de pessoas.

E pessoas, ao contrário da tecnologia, não costumam ser instantâneas, imediatas, tão perfeitas ao ponto de lhes exigirmos que tudo esteja pronto para ontem. Por mais que tenhamos visto isso há décadas em filmes, pessoas ainda não aprenderam o dom da telepatia e, por isso, ainda não aprenderam a interpretar nossos pensamentos, atendendo nossos desejos antes mesmo de nos pronunciarmos verbalmente sobre os mesmos.

Acostumados com a rapidez da tecnologia, assumimos que as coisas devem ser feitas de forma instantânea. Não aceitamos esperar em filas de bancos se podemos resolver tudo pelo serviço de atendimento online. Não queremos conversar com atendentes se um sistema de menus e alguns toques nas teclas certas nos levam ao o que queremos.

Cada vez mais, nos distanciamos do contato com o ser humano, exatamente por estarmos acostumados a lidar com máquinas, geralmente perfeitas e rápidas, que não nos fazem perguntas indesejadas e somente realizam o que lhes comandamos. Em nossa visão, ao lidar diretamente com o ser humano, temos que retroceder em relação a nossas expectativas, a nosso desejo imediatista, porquê o ser humano, obviamente, (ainda?) não é uma máquina.

Algo interessante, que particularmente não imaginava que ocorreria tão cedo, é o fato das pessoas que lidam conosco, não necessariamente pessoas geeks, nerds e ou amantes da tecnologia, estarem começando a, elas também, ficarem dependentes da tecnologia e a perceber que o contato com sistemas automatizados trazem alguns benefícios ao seu dia-a-dia.

Se você sempre reclamou do atendente do serviço de telefonia ou de qualquer profissional com o qual você tenha que que lidar para resolver um problema com um serviço sendo prestado de forma indesejável, pare um pouco para imaginar que, você, geek ou nerd que trabalha na área de tecnologia, provavelmente também recebe ou receberá algum nível de hostilidade originada das pessoas com as quais você tem que lidar diariamente em sua profissão.

Seja um superior, um cliente ou um colega de trabalho, é comum perceber que as pessoas, atualmente, por estarem acostumadas a rapidez com que pode se resolver os problemas com a ajuda de máquinas, esperam que um problema, quando depende de você (ser humano) para ser solucionado, receba a mesma atenção e rapidez em sua resolução que normalmente se esperaria de um sistema automatizado.

Ou seja, se é algo que não pode ser resolvido imediatamente, invariavelmente, as pessoas que dependem da solução do problema ficarão de uma forma ou de outra insatisfeitas e, por vezes, vão lhe enxergar como o elo fraco na solução de seus problemas, o ser humano lento e desengonçado que ainda está lá, no meio do caminho, atrapalhando a solução rápida de seu problema que, na visão delas, poderia estar sendo resolvido por um sistema rápido e perfeito, que não faz perguntas e simplesmente resolve problemas.

Asbtraia o fato de que, geralmente, o problema a ser resolvido ainda não é passível de ser solucionado totalmente por uma máquina e/ou sistema e que, felizmente ou infelizmente, ainda é necessário que um humano ainda esteja lá, para ajudar onde as preciosas máquinas ainda não conseguem chegar.

O que as pessoas se esquecem é que, ao contrário do que a ficção científica nos faz acreditar, as máquinas não funcionam sozinhas. Elas precisam ser construídas, programadas e mantidas funcionando. Pode lhe parecer chocante, mas seu e-mail, seu aplicativo de mensagens instantâneas, seu serviço e/ou site preferido de rede social e tudo o mais o que você possa imaginar e que esteja disponível na Internet, depende de seres humanos para existirem e continuarem funcionando.

Os profissionais de tecnologia (porquê “profissionais de TI” e tão semana passada) são essenciais na sociedade moderna. E, mesmo assim, frequentemente nos esquecemos dos mesmos. Quando exigimos suporte via e-mail, mensagens instantâneas, telefone ou qualquer outro meio, nos irritamos quando nossas exigências não são prontamente atendidas. Nesse momento, e somente nesse momento, nos lembramos que existem pessoas por trás dos serviços.

Devemos nos lembrar que empresas são objetos. Paredes, mesas, cadeiras, papéis e outros objetos que, se não existissem, ainda assim, não seriam razões para impedir que uma pessoa conseguisse fazer algo bem feito e atingir um objetivo. A empresa, o local de trabalho, lhe fornece ferramentas, a pessoa é que fornece o trabalho. E as ferramentas não são todas essenciais, mas as pessoas, por outro lado, sempre são essenciais.

Vemos diariamente inúmeros exemplos de pessoas descontentes com seu trabalho. Começo a notar que, dentre outras razões, uma das principais razões para que isso aconteça é o fato de que as pessoas com as quais as mesmas interagem começam a esperar das mesmas ações e perfeição em um nível que os tornaria características inerentes de máquinas, não de seres humanos.

O Google não é legal. As pessoas que trabalham no Google são legais. A sua tecnologia preferida, sem a qual você não pode mais viver, não é perfeita. As pessoas que a criaram e que a mantém funcionando são os culpados por você acreditar que essa tecnologia preenche sua vida e a torna mais interessante. Essas pessoas é que trabalham para que você possa ter uma vida melhor.

Essas pessoas merecem boas condições de trabalho, o que nem sempre significa ter um computador mais novo ou acesso a uma nova tecnologia. Por vezes, oferecer melhores condições de trabalho significa simplesmente ser mais amigável, compreensível, mais humano.

Não cometer erros comuns ao lidar com essas pessoas é essencial, mas a maioria das empresas nas quais essas pessoas trabalham pecam em cometer esses mesmos erros. São coisas simples, óbvias para a maiorias dessas pessoas e, por isso, por vezes as mesmas se encontram em situações difíceis, pensando em como esse tipo de problema, que poderia ser evitado de maneira tão óbvia para as mesmas, ainda assim ocorre e constantemente as vitimam.

Dicas de como tratar bem seus nerds/geeks existem aos montes por aí. Se você não segue essas dicas, que lhe são dadas pelas próprias pessoas que sofreram em ambientes que lhes levaram a criar essas cartilhas de boa convivência, na visão das pessoas que sofrem com esses problemas, você não é um observado muito bom. E, talvez, você esteja prestes a perder essas pessoas.

E, infelizmente, ao contrário do que se imagina, dificilmente será possível conseguir pessoas como a que será perdida, ao contrário de objetos inanimados de escritório, que existem aos montes por aí e, estes sim, podem ser ignorados.

Sonhos de infância e realidades da vida adulta

February 1st, 2009 4 comments

Quando criança, eu sempre ficava imaginando o que eu seria quando crescesse. Basicamente, eu sofria da loucura que os candidatos a universitários sofrem quando precisam escolher uma carreira, uma profissão para o resto de suas vidas, mas ainda estão indecisos.

A diferença era que eu sofria disso uns dez anos antes da época normal de uma pessoa sofrer com isso. Nesse sentido, eu fui muito precoce. Somente nesse sentido, visto que, para muitas outras coisas, ainda sou um bebê aprendendo a descobrir o mundo. Talvez seja por essa precocidade em relação a esse assunto que eu bloqueei inconscientemente esse pensamento e consegui sobreviver até hoje sem tomar uma decisão real sobre essa questão.

Sim, senhoras e senhoras, eu, por mais escandoloso que isso possa parecer a vocês, ainda não tenho formação de nível superior. Felizmente, consegui viver relativamente bem até hoje dessa forma. Veja bem, não estou incentivando ninguém a fazer o mesmo, o que funciona para mim pode não funcionar para você e vice-versa.

Inclusive, é importante notar, a falta de uma formação de nível superior me fez perder muitas oportunidades profissionais muito interessantes. Não tenho como afirmar que seria uma melhor pessoa ou teria uma vida melhor (em todos os sentidos, não somente financeiramente)  caso tivesse ido em frente e cursado uma faculdade, mas o fato é que ainda não passo fome. Ainda.

Desde que comecei a trabalhar com tecnologia, eu basicamente deixei a vida ir me levando. Nunca tive muita preocupação em planejar uma carreira e definir metas profissionais. Comecei como fuçador, como muitos de vocês provavelmente também começaram, e continuei. Simples assim.

A vida seguiu seu curso e o universo agiu a favor. Nunca cheguei a me preocupar em me matar de estudar, me formar, escolher uma carreira, ter ascensão profissional e toda a parafernália envolvida. Quando criança, eu não tinha uma resposta pronta e exata para quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse.

Talvez porque, na época (na saudosa década de 80, com Juba e Lula comendo solto), minha profissão simplesmente ainda não existisse. Eu tinha um lampejo de idéia de querer “lidar com computadores“, mas ainda não sabia o que isso realmente envolveria e o que eu realmente faria com eles (os computadores) alguns anos mais tarde.

Podem me chamar de velho (e eu sou, 3.0 inclusive, chupa modinha 2.0), mas eu sempre tive em minha mente de criança a idéia de uma profissão como sendo um trabalho braçal. Não entrava em minha cabeça uma pessoa poder trabalhar com a mente e ainda poder chamar isso de profissão.

Não me perguntem o porque disso. Talvez Freud explique, mas eu acredito que seja mais devido a minhas aulas (inúteis, reconheço, e não me orgulho disso) de não-me-lembro-mais-o-nome-do-curso (acredito que seja Estudos Sociais), nas quais o meu professor sempre fazia questão de frisar a importância da frase “O trabalho dignifica o homem“.

Trabalho é uma palavra que eu associo diretamente, sem escala alguma, a esforço físico, o bom e velho trabalho braçal de antigamente. O que eu e muitas outras pessoas fazemos atualmente, nessa sociedade da informação, eu prefiro associar a uma ocupação, a qual, vejam vocês, acaba por também ser minha forma de ganhar meu Toddy (sim, porque não sou muito chegado em pão).

Ainda hoje, sinto uma grande estranheza quando ouço pessoas falando sobre “nossos profissionais”, se referindo a equipe da qual faço parte. Eu ainda tenho um preconceito inconsciente (do qual venho tentando me livrar, mas do qual meu cérebro ainda teima relembrar sempre que possível) em relação a qualquer forma de trabalho não braçal.

Eu cheguei a exercer trabalhos braçais antes de entrar nessa loucura que é a àrea de tecnologia, e nessa época não achava que o que eu fazia não era um trabalho. Ao contrário, aquilo sim eu entendia como um trabalho. Manual, do tipo que você soa e fica fisicamente cansado de fazer.

Passei anos do início de minha vida na àrea de tecnologia tentando me adaptar, educando meu cérebro a pensar que o que eu estava fazendo era um trabalho, que eu tinha uma profissão e que aquilo era um trabalho digno como qualquer outro. Só menos fisicamente cansativo e financeiramente mais compensador.

Melhorei bastante e hoje em dia já consigo aceitar muito disso como natural nos outros, mas ainda tenho um resquício de preconceito contra eu mesmo, teimando em achar que eu não sou um profissional no sentido mais literal da palavra. Talvez eu consiga curar isso cursando uma faculdade e obtendo um diploma, para convencer minha mente de que, agora sim, oficialmente, eu sou um profissional.

Ou, talvez, isso se cure somente com terapia. O fato é que, ainda hoje, sinto que não passei, em minha vida pós-infância/quase-adulta, pela experiência de escolher uma profissão da forma tradicional e, provavelmente por isso, ainda não tenha digerido o fato de que, para alguns, sua ocupação atual é algo tão natural que todo esse processo maluco histérico pelo qual passei precocemente ainda na infância simplesmente não é necessário.

Dada o enorme universo de novas profissões criadas nos últimos anos e a quantidade ainda maior delas que são criadas diariamente, é impossível que ninguém no mundo tenha pensando da mesma forma. Por isso esse post, para tentar compartilhar com outras pessoas essas doideiras que eu teima em carregar em meus pensamentos. E você, tem disso também ?

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